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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Das despedidas


Nunca fui bom com despedidas. Último dia de férias, abraço nos parentes que demoraria a reencontrar, beijo no rosto, meio sem jeito, em alguém especial, mas que não voltaria a ver. Contemplar, tristonho, algum local que deixaria de pertencer ao meu cotidiano. Passagens necessárias para a vida seguir adiante e uma única certeza presa na retina e na memória: tudo vira passado e exílio [de si, dos outros, de tudo].

Às vezes, cogito, num arroubo de radicalismo semântico, suprimir todos os signos que representem um sinal de despedida. Dizer adeus, ciao ou o simpático au revoir parece-me mais uma espécie de auto-engano. Tenho esperança de voltar atrás, desistir e dizer que tudo era brincadeira. Talvez assim criasse um universo onde não há intervalos para a saudade ou aquela sensação estranha de ausência. A liturgia envolta nas despedidas carrega sempre uma dor que aniquila, mas que deve acompanhar [não sei bem o porquê] todos os encontros.

Entretanto, a despedida não é simplesmente uma parte necessária de nossa sobrevivência [social e psíquica]. Percebo, como todos acabam notando, que deixar a vida seguir seu curso é também acreditar no amadurecimento, na vontade de crescer, romper paradigmas, ampliar horizontes. Com o passar dos anos, as despedidas tornam-se mais leves, menos ritualísticas. O abraço apertado cede lugar ao tapinha no ombro e o desejo forte de retornar em breve.

Um dia, quem sabe, eu aprenda a me despedir. Sendo bastante otimista, diria que poderei enxergar, tão somente, o lado bom da despedida. Ainda claudico nessa árdua caminhada rumo a tão sonhada imagem de adeus: dizer “até logo” seria contemplar um futuro melhor, no qual todas as distâncias servissem de ponte para ser alguém mais feliz [se até Sísifo precisa da felicidade, nós, seres pós-pós modernosos também necessitamos].

Na próxima vez em que for me despedir [seja do vigilante da rua a um antigo amor], tentarei ser forte e suficientemente bom para silenciar e, num tom de máximo respeito, acenar para a certeza de que despedidas não existem, pois a vida, principal motivo dos encontros, sempre permanece.

Texto de Matheus Pazos do blog Crônicas Exílicas

quarta-feira, 27 de março de 2013

O que faz bem



Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere... 

Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. 

Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde. 

Prazer faz muito bem. 
Dormir me deixa 0 km. 
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha. 
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos. 
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de idéias. 
Brigar me provoca arritmia cardíaca. 
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. 
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. 
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem! 
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada. 
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde! 
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda! 
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna. 
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau! 
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca! 
Conversa é melhor do que piada. 
Exercício é melhor do que cirurgia. 
Humor é melhor do que rancor. 
Amigos são melhores do que gente influente. 
Economia é melhor do que dívida. 
Pergunta é melhor do que dúvida. 
Sonhar é melhor do que nada!


Luís Fernando Veríssimo


sexta-feira, 15 de março de 2013

Sobre o amor...


“Eu te amei muito. Nunca disse, como você também não disse, mas acho que você soube. Pena que as grandes e as cucas confusas não saibam amar. Pena também que a gente se envergonhe de dizer, a gente não devia ter vergonha do que é bonito. Penso sempre que um dia a gente vai se encontrar de novo, e que então tudo vai ser mais claro, que não vai mais haver medo nem coisas falsas. Há uma porção de coisas minhas que você não sabe, e que precisaria saber para compreender todas as vezes que fugi de você e voltei e tornei a fugir. São coisas difíceis de serem contadas, mais difíceis talvez de serem compreendidas — se um dia a gente se encontrar de novo, em amor, eu direi delas, caso contrário não será preciso. Essas coisas não pedem resposta nem ressonância alguma em você: eu só queria que você soubesse do muito amor e ternura que eu tinha — e tenho — pra você. Acho que é bom a gente saber que existe desse jeito em alguém, como você existe em mim.”

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Texto do Dia



"Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu gosto de você porque gostar não faz sentido. Permita-se. Se você acha que no fundo mesmo, apesar de todas essas reuniões e palavras em inglês que só querem dizer que você não sabe o que está falando, o que importa é ter pra quem mostrar que saiu o arco-íris. Permita-se. Porque eu não quero que você tenha essa pressa ao ponto de ajudar com as próprias mãos. Eu quero que você sinta esse prazer que chega aos poucos. E mata tudo que há em volta. E explode os relógios. E chega aos poucos ainda que você ainda não saiba nem quem é pouco e nem quem é lento. Porque você morre. Se você prefere a vida quando se morre um pouco por alguém. Permita-se. Eu não faço a menor ideia de como esperar você me querer. Por que se eu esperar, talvez eu não te queira mais. Eu não queria ir embora e esperar o dia seguinte. Por que cansei dessa gente que manda ter mais calma. E me diz que sempre tem outro dia. E me diz que eu não posso esperar nada de ninguém. E me diz que eu preciso de uma camisa de força. Se você puder sofrer comigo a loucura que é estar vivo. Se você puder passar a noite em claro comigo de tanta vontade de viver esse dia sem esperar o outro, se você puder esquecer a camisa de força e me enroscar no seu corpo para que duas forças loucas tragam algum equilíbrio. Se você puder ser alguém de quem se espera algo, afinal, é uma grande mentira viver sozinho, permita-se. Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos."

Tati Bernardi

domingo, 19 de agosto de 2012

Texto do Dia


Lá estou eu em mais uma mesa com risos pela metade. Olho pro lado e sinto uma saudade imensa, doída, desesperançada e até cínica. Saudade de alguma coisa ou de alguém, não sei. Talvez de mim, de algum amor verdadeiro que durou um segundo... Meus amigos me adoram. Mas será que eles sabem que se eu estou morrendo de rir agora, mas daqui a pouco vou morrer de chorar? E isso 24 horas. E eu, mais uma vez, olho para o lado morrendo de saudade dessa coisa que eu não sei o que é. Dessa coisa que talvez seja amor. Odeio todos os amores baratos, curtos e não amores que eu inventei só para pular uma semana sem dor. A cada semana sem dor que eu pulo, pareço acumular uma vida de dor. Preciso parar, preciso esperar. Mas a solidão dói e eu sigo inventando personagens. Odeio minha fraqueza em me enganar. Eu invento amor, sim e dói admitir isso. Mas é que não aguento mais não dar um rosto para a minha saudade. É tudo pela metade, ao menos a minha fantasia é por inteiro.. enquanto dura. No final bruto, seco e silencioso é sempre isso mesmo, eu aqui meio querendo chorar, meio querendo mentir sobre a vida até acreditar. E aí eu deito e penso em coisas bonitinhas. E quando vou ver, já dormi.
Tati Bernardi